Quando a professora Arlene Cristina, 51, saiu na rua usando uma máscara adaptada com transparência na região dos lábios, muitas pessoas estranharam e encararam o seu rosto. “As pessoas olhavam. Acho que eles pensaram que eu queria mostrar o meu batom”, brinca.




Nathalie e a mãe, Arlene, que fez máscara adaptada para a filha poder ler seus lábios

A transparência no lugar do tecido, no entanto, não era resultado de simples vaidade. Arlene decidiu fazer a máscara adaptada para que a filha Nathalie Cooper, 26, pudesse enxergar sua boca: deficiente auditiva, a jovem faz uso da leitura labial para se comunicar.

Diagnosticada com surdez bilateral aos 5 anos de idade, Nathalie é surda oralizada — ou seja, ela consegue falar e se comunica pelo português, mas precisa da leitura labial para compreender os outros. “Eu achava que ela escutava porque ela falava muito bem. Até que um dia, no hospital, uma médica colocou uma sulfite na frente [da boca] e ela falou: ‘Não estou te ouvindo’”, conta Arlene. “A médica falou que ela estava fazendo a leitura labial, que não estava escutando.”

Com a necessidade do uso de máscaras devido à pandemia do Coronavírus, Nathalie conta que novas dificuldades têm aparecido em sua rotina e que, por isso, tem se sentido “impotente”. “Não consigo mais me virar sozinha. Não dá para ficar pedindo para as pessoas tirarem a máscara”, afirma.

Mesmo com a adaptação de máscara feita pela mãe, Nathalie conta que perdeu muito de sua independência com a pandemia e a necessidade do uso de máscaras nas ruas. “Não consigo fazer coisas simples, como ir à padaria. Percebi que fiquei ainda mais reclusa”, diz.

Ela faz um apelo para que, neste momento, as pessoas pensem em quem tem deficiências auditivas. “Quando se fala em acessibilidade, todo mundo pensa no cadeirante”, pondera. “As pessoas não têm informação. Inclusive, um rapaz foi grosseiro comigo [nas redes sociais] e me acusou de obrigar ela a fazer leitura labial em vez de usar Libras, mas eu nunca obriguei”, diz Arlene. “Dentro da surdez tem muita diversidade”, conta.

(Fonte: Uol / Foto: Arquivo Pessoal)