Quando surgiu o termo “cidade inteligente”, ele representava um conceito bastante vago para a maioria das pessoas, porque se desconhecia exatamente o que esperar dessa nova concepção.




Surgiu, então, a cidade inteligente 1.0. Direcionado pelo uso da tecnologia e sua capacidade de melhorar a sustentabilidade e o controle das áreas urbanas, esse modelo de cidade trazia consigo um enorme potencial de transformação.

O passo seguinte, a cidade inteligente 2.0, trouxe uma abordagem um pouco diferente, com a associação ao conceito da cidade direcionada pela tecnologia e a possibilidade de os governantes utilizarem os modelos tecnológicos para melhorar a vida das pessoas.

A rápida absorção do conceito de cidades inteligentes levou à célere evolução do modelo, gerando a formatação da cidade inteligente 3.0. Nessa nova concepção, a cidade inteligente insere o cidadão nos processos de criação e aborda a cidade de uma forma mais ampla, contendo questões como inclusão, democracia, criação de oportunidades econômicas e construção de capital social. Ela representa a tentativa de associar a participação dos cidadãos com ambos modelos anteriores, inserindo em seus conceitos os objetivos de governo e das novas tecnologias.

A grande vantagem dessa nova abordagem é que o modelo se adapta não só às cidades de países ricos, mas, principalmente, àquelas de países menos desenvolvidos, onde a população mais vulnerável depende de cuidados e atenção maiores, e a tecnologia associada aos mecanismos sociais pode ser uma ferramenta poderosa para estruturar o desenvolvimento sustentável e socialmente igualitário.

Barcelona, cidade espanhola pioneira no reconhecimento da soberania digital para as áreas urbanas, por intermédio de seus dirigentes, reconhece que a cidade inteligente é mais uma jornada que um destino, e nesse processo evolutivo está claro que as comunidades devem ser incluídas.




A implantação da cidade inteligente 3.0 levou Barcelona a duas direções.

A primeira envolveu o desenvolvimento de uma nova infraestrutura de dados composta por uma plataforma de coleta e análise de informações, e um nível de interface com o usuário, por meio do uso de aplicativos que facilitam o acesso a todos os dados.

A segunda direção foi usar esse controle integrado para democratizar as informações. A nova plataforma e todos os dados ali existentes pertenceriam à cidade. Estariam disponíveis para cidadãos, empresas privadas e outras partes interessadas, mas a cidade e a sua população manteriam a propriedade da tecnologia e decidiriam o que constituiria o acesso adequado, com garantia de privacidade etc.

Essa nova era, com a cidade inteligente 3.0, implica na democratização digital e, portanto, no incremento substancial de tecno-alfabetização da população, para que todos estejam aptos a explorar a tecnologia e entender como ela pode servir da melhor forma aos seus interesses e necessidades.

Para esse propósito, a cidade espanhola criou o site “Barcelona Digital City”, com o objetivo de difundir a educação digital, que visa a, principalmente, promover vocações científicas e tecnológicas em crianças, por exemplo pelo FabLab, que ensina as habilidades necessárias para absorver a inovação usando novas tecnologias. Da mesma forma, tem o propósito de auxiliar os idosos a superar as barreiras que os afastam do mundo digital.

Outro objetivo da plataforma é desenvolver a democracia usando os meios digitais, criando mecanismos seguros e eficientes para que, de forma livre, as pessoas, em um formato de inteligência coletiva, possam testar e manifestar suas opiniões acerca das novas propostas para a cidade e sua viabilidade.




Barcelona permanece na vanguarda das cidades inteligentes, estimulando e aperfeiçoando a participação dos cidadãos nos mecanismos e nas inovações tecnológicas que devem dominar o desenvolvimento das cidades nas próximas décadas. Exemplo a ser seguido por todos que, em outras partes do mundo, queiram entrar na nova era das cidades inteligentes 3.0.

Texto de Claudio Bernardes – Engenheiro civil e presidente do Conselho Consultivo do Sindicato da Habitação de São Paulo. Presidiu a entidade de 2012 a 2015.

Publicado na Folha de São Paulo em 17.mai.2020